A primeira experiência foi através de um físico, recém-formado na USP (é o que imagino pelo tanto jovem que me aparentava ser), Everton Zanella, que criou um wikisite do Adote um Vereador, espaço colaborativo e democrático no qual todo cidadão pode publicar e excluir informações, compartilhar inteligência e conhecimento. Graças a este trabalho voluntário, criado sem que eu mesmo conhecesse o Everton pessoalmente, a ideia do Adote ganhou dimensão nacional. O wikisite não é uma ferramenta para extrair dados públicos, mas me mostrou que algo estava acontecendo bem distante dos nossos olhos, acostumados a enxergar a vida offline. Jovens, em especial, criando páginas e serviços na internet capazes de descobrir, desvendar e disseminar informação.
Enquanto cobrávamos pela rede ou na mídia que os vereadores de São Paulo publicassem na internet as notas fiscais para comprovar os gastos com a verba indenizatória dos gabinetes, um outro rapaz desenvolveu programa que consegue extrair estas informações, divulgadas de forma confusa e pouco prática, e reuni-las em um site próprio, onde podemos consultar como é a dinâmica de compras e gastos dos parlamentares paulistanos. Você consegue verificar, por exemplo, quem são os fornecedores mais beneficiados com a verba indenizatória ou com que empresas cada um dos vereadores costuma negociar. Isto possibilitou que se identificasse que algumas prestadoras de serviço contratadas com dinheiro público sequer tinham sede própria ou se prestavam para aquela finalidade. Houve caso de gente que comprou serviço de buffet para produzir um site.
Cheguei argumentar, ingenuamente, que a prefeitura e a Câmara estavam publicando os dados na internet. Logo fui convencido de que na maior parte das vezes temos uma falsa transparência. Pois os dados só podem ser considerados públicos quando de domínio deste público, se divulgados em formato aberto, compreensível por máquinas e pessoas, que possam ser manipulados, cruzados, reutilizados e distribuídos livremente. Há técnicas e regras para tal. É o que conhecemos por Dados Abertos – tema, aliás, de seminário nesta sexta-feira, na Câmara Municipal de São Paulo, a partir das 9 e meia da manhã, onde estarei para falar, mas, principalmente, para ouvir e aprender. Lá estarão reunidos muitos desses voluntários, estudiosos, interessados e cidadãos prontos para perverter a ordem natural da coisa pública que, infelizmente, é de torná-la privada e para privilegiados.
A intenção da Mesa Diretora da Câmara é debater questões relacionadas à webcidadania, à transparência e à abertura de dados dos órgãos legislativos e executivos. Os organizadores partem de uma premissa interessante e animadora: “um sistema de Dados Abertos e confiável é aquele que fornece informações e números que qualquer cidadão pode utilizar, reutilizar, manusear, cruzar e distribuir livremente, com uma mínima e única ressalva: a exigência de atribuição e compartilhamento” – me escreveu Carlos Marchi, diretor de Comunicação Externa.
Vou animado para o encontro, pois lá estarão hackers dispostos a “invadir” a Câmara e compartilhar com a sociedade aplicativos e projetos baseados em dados públicos, que podem deixar as coisas (a pública, principalmente) às claras.